Uma vida dedicada ao ensino da Medicina Veterinária

Uma entrevista substancial com Eliel Judson traz para as novas gerações a história do ex-vice-presidente do CFMV, um dos educadores mais influentes da Medicina Veterinária baiana [...]

Eliel Judson Duarte de Pinheiro

Na segunda matéria da série em homenagem ao mês do médico-veterinário, trazemos um profissional famoso na Academia Baiana:  o professor Eliel Judson Duarte de Pinheiro. O Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado da Bahia, fez uma entrevista longa com esse profissional que foi entre os primeiros a se inscrever no CRMV/BA.

A conversa com Eliel Judson passeia pela história da Medicina Veterinária da Bahia e o experiente professor externa suas preocupações com a qualidade do ensino que forma médicos-veterinários no país. Acompanhe:

 

  1. Fragmentos da vida pessoal, escolha da profissão e informações familiares

Posso considerar que a identificação com a Medicina Veterinária remonta a minha infância, quando passava as férias na fazenda de meu avô na cidade de Laje, Bahia – onde nasci, em 1947 -, e me envolvia nas lides das atividades pecuárias. Este contato com o campo se projetou durante a adolescência, intensificou-se com o meu envolvimento em atividades de exploração pecuária em propriedade pertencente a meu pai, localizada no município de Itaquara, o que certamente influenciou a futura escolha profissional.  Todo o meu período de infância e adolescência teve como cenário o interior do Estado, no belíssimo Vale do Jequiriçá. Residi em Laje, Ubaíra e Jaguaquara onde realizei, de 1954 a 1962, no renomado Colégio Taylor-Egídio, os cursos primário e ginasial como eram denominados à época, com uma passagem de um ano, acompanhando minha família, em 1958, por Recife, Pernambuco, onde cursei o quinto ano primário. O meu curso secundário foi realizado no período de 1963 a 1965, nas cidades de Salvador e Jequié.

Sou casado há 46 anos, tenho três filhos, cinco netos e um bisneto. Todos eles contribuem para a minha alegria de viver e geram insumos permanentes para a minha felicidade.

  1. O período de estudante no curso de graduação

Realizei o curso de graduação na Escola de Medicina Veterinária da Universidade Federal da Bahia de 1966 a 1969 integrando uma turma inquieta, questionadora e muito unida. Foram anos de muita participação política numa fase da vida nacional onde as liberdades experimentavam limitações. Viajamos muito, inclusive para outros estados da federação. A minha turma participou, ao lado da comunidade discente, de diversos movimentos políticos e culturais, alguns deles, em prol da qualidade do trabalho acadêmico, enfim, vivemos de forma intensa todas as possibilidades que o vigor da juventude nos impulsionava.

Trinta e sete colegas concluíram o curso dos mais de sessenta que começaram a caminhada no primeiro ano. Uma das características marcantes do grupo refere-se a postura de companheirismo, solidariedade e os fortes laços de união de todos. Posso afirmar que construímos amizades imorredouras, o que é confirmado nas manifestações de alegria, nos regulares encontros que sempre organizamos, ao longo dos anos, para comemorar a nossa formatura. Neste ano de 2019, mais uma vez, iremos entoar hosanas e render graças ao nosso Deus – generoso e bom -, pelo jubileu de ouro de exercício da medicina veterinária, esta nobre, multifacetada e relevante atividade profissional, que tanto tem contribuído para o desenvolvimento da sociedade universal.

Neste encontro, renderemos um preito de saudade aos nossos cinco colegas de turma que partiram para a eternidade e que deixaram um significativo vazio na lembrança de todos nós.

Havia também um fraterno convívio com os colegas de outras turmas o que perdura até hoje no relacionamento pessoal e profissional. Podemos dizer sem receio de exageros que desenvolvemos na nossa juventude a arte de fazer amigos o que nos permite ratificar a riqueza do verso da canção Amigos para Sempre:

Amigos para sempre é o que nós queremos ser, na primavera ou em qualquer das estações, nas horas tristes, nos momentos de prazer, amigos para sempre.”

 

  1. Ingresso no magistério e resumo indicativo da trajetória acadêmica e profissional

Quando cursava o segundo ano do Curso, no longínquo ano de 1967, comecei a trabalhar no Serviço de Registro Genealógico das Raças Bovinas de Origem Indiana, oportunidade que se constituiu uma notável experiência para a minha formação profissional. Fiz contato com grande número de centros de seleção e selecionadores de zebuínos da Bahia, participei de inúmeras exposições pecuárias no interior do Estado e tive oportunidade de estabelecer uma forte interação e construir laços de amizade com empresários do agronegócio e com Professores do Curso de Medicina Veterinária que lá trabalhavam. Talvez tenha sido a partir dessa influência a gênese da vocação para dedicar a minha vida a nobre tarefa de construir o futuro e contribuir para a formação das novas gerações como educador.

Ao concluir o curso iniciei, em fevereiro de 1970, as minhas atividades profissionais, exercendo a Chefia do Escritório do GERFAB – Grupo Executivo de Erradicação da Febre Aftosa na Bahia, nos municípios de Itagi, Aiquara e Jitauna.   No final do mês de maio deste mesmo ano, recebi, através do saudoso amigo Professor Geraldo Torres, em nome do Diretor Professor José Guilherme da Motta, o honroso convite para trabalhar na Escola de Medicina Veterinária da Universidade Federal da Bahia, como responsável pela condução de um projeto ligado ao desenvolvimento da pecuária no Vale do Rio Pojuca. O ingresso na Universidade selou o meu destino profissional.  Em 1971 estagiei na conceituada Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e fui selecionado para realizar o curso de Mestrado em Zootecnia, iniciado em março de 1972 e concluído em dezembro de 1973. Foi uma experiência fantástica na minha vida profissional e pessoal. Participei de inúmeros eventos científicos, exposições agropecuárias, seminários técnicos, encontros profissionais, ministrei aulas para o curso de graduação, mergulhei na excelente biblioteca da Escola e construí grandes amizades com destaque para o meu orientador o inolvidável Professor Luis Rodrigues Fontes, exemplo de integridade pessoal e educador de escol.

Ao retornar para a minha Escola, no início de 1974, iniciei a carreira docente. Tive sob a minha responsabilidade isolada ou compartilhada as seguintes disciplinas: Nutrição Animal, Extensão Pecuária, Bovinocultura e na pós-graduação, em um semestre letivo, Tirocínio Docente.

Na Escola de Medicina Veterinária da UFBA exerci diversas responsabilidades de direção acadêmica, seja como Coordenador do Curso, Chefe do Núcleo de Extensão, Chefe do Departamento de Produção Animal e Diretor, em dois mandatos. Nos períodos que tive a elevada honra de exercer a Diretoria, contei com o envolvimento e o expressivo apoio dos meus colegas professores e dos corpos discente e administrativo o que gerou uma coesão institucional impulsionadora de conquistas de importantes e significativas realizações.

Representei a Escola junto a Administração Superior da UFBA, por dez anos, como membro efetivo do Conselho Universitário, do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão e Substituto do Vice-Reitor, eleito pelo Conselho Universitário por quatro anos consecutivos.

Nesta trajetória, voltada essencialmente para a educação, tive o privilégio de participar  do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado da Bahia como Vice-presidente e Conselheiro, de ter exercido as responsabilidades de Conselheiro, Tesoureiro e Vice-Presidente do Conselho Federal de Medicina Veterinária,  Diretor-Presidente do Instituto Biológico da Bahia, Presidente da Comissão Nacional de Ensino da Medicina Veterinária, Presidente do Comitê Editorial da Revista do CFMV, Chefe de Gabinete e Secretário Substituto da Secretaria da Industria, Comércio e Mineração do Estado da Bahia  e Responsável Técnico pela implantação e Coordenação do Curso de Medicina Veterinária da Unime de fevereiro de 2002 a agosto de 2017.

4. Formação Profissional, Educação Médica Veterinária e Ensino à Distância (EAD)

O mundo deste primeiro quartel do século XXI vivencia uma extraordinária explosão tecnológica promovida pela quarta revolução industrial.  Estamos contemplando a consolidação de uma forte interação digital, geradora de novos padrões comportamentais, a fusão de tecnologias, o desenvolvimento exponencial da internet das coisas e das pessoas, o avanço das fronteiras da inteligência artificial, a automação de processos e sistemas com a crescente robotização de inúmeras atividades e a imprevisibilidade dos cenários emergentes.

Os novos paradigmas provocam mudanças estruturais profundas no comportamento e nas demandas da sociedade e do mercado de trabalho o que repercute e influencia os centros de formação de recursos humanos. Os desafios emergentes  do mundo alcançam também os cursos de Medicina Veterinária, instigando a uma remodelagem nos instrumentos de construção do patrimônio técnico e humano das novas gerações de médicos-veterinários e na estruturação curricular  para que  se busque atribuir precedência as metodologias que estimulem a criatividade, o inter-relacionamento, o desenvolvimento de  habilidades para o trabalho em equipe, o aprendizado ativo e participativo, a fim de que sejam oferecidos à sociedade profissionais atualizados, perquiridores, motivados a estudar por toda a vida, capacitados a acompanhar a evolução  e realizar a leitura crítica da conjuntura mundial e que reúnam competências e habilidades para um exercício profissional criativo,  eficiente, eficaz e efetivo.

Não se pode olvidar que à educação, cumpre formar um profissional cidadão capaz de contribuir para a elevação dos padrões éticos da  sociedade, com densidade teórica que lhe dê suporte para exercitar a criticidade e desenvolver a habilidade de selecionar os conteúdos que lhe possibilite pensar estrategicamente para encontrar as melhores soluções  e conquistar os melhores resultados no deslinde das questões técnicas, humanas e profissionais.

Nesse contexto é imperativo enfatizar, porque prioritário e de inegável essencialidade, que  todo o avanço do arsenal tecnológico aplicado à educação só produzirá efeitos perenes através da valorização e preparo do professor, do educador,  cuja ação, como arquiteto do futuro, é imprescindível para colimar os superiores objetivos de construção de novos e elevados patamares de desenvolvimento do homem e da sociedade.

Através da educação e do bom professor desfralda-se a bandeira da esperança, difundem-se as sementes da honradez, do altruísmo, da fraternidade e se edificam sociedades comprometidas com a liberdade, a paz social e a sã política, aptas a promover os avanços que propiciem a geração de riquezas e o bem-estar coletivo.  A boa educação se opõe ao fatalismo social, nivela as oportunidades, elimina a miséria e a desinformação e, sobretudo, forma cidadãos conscientes de seu papel social e político, preparados para a vida nos regimes democráticos.

Nesta nossa conversa e atendendo aos objetivos propostos, creio que podemos tangenciar três variáveis no âmbito da educação médica veterinária brasileira:

a- É preciso reconhecer e proclamar a existência de diversos centros de excelência de formação médico veterinária, integrados por docentes de alto nível técnico, científico, acadêmico e profissional, com núcleos de pesquisa e pós-graduação ativos e produtivos, compatíveis com os melhores padrões universais de qualidade. São instituições de referência que granjearam o respeito e a credibilidade do País e das suas congêneres em todo o mundo.

b- Há, contudo, equívocos nas diretrizes políticas para o ensino superior. Um deles, vincula-se a excessiva proliferação dos cursos, máxime de Medicina Veterinária, decorrente de uma política permissiva e inconveniente aos interesses nacionais e que não tem exigido as condições mínimas de qualidade acadêmica para a criação de novos centros de formação. Demais, os sistemas de regulação e acompanhamento dos padrões qualitativos dos cursos de graduação não têm sido efetivos como indutores da melhoria do trabalho acadêmico. As recentes Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina Veterinária aprovadas em 23 de janeiro de 2019, pela Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação, precisam ser efetivamente implementadas e rigorosamente respeitadas pelas instituições de ensino, a fim de que não se transformem em letra morta, e cumpram rigorosamente os seus elevados propósitos de prover uma boa formação ao profissional  que irá atuar neste terceiro milênio pleno de desafios.

É urgente também que se desenvolvam mecanismos de Estado para proceder um efetivo acompanhamento do desempenho das instituições e até mesmo promover o encerramento das atividades dos Cursos, sejam eles federais, estaduais, municipais ou privados que não atendam aos requisitos de excelência educacional na formação da juventude e desconsiderem as suas elevadas responsabilidades para com o Pais, ministrando um ensino de má qualidade.

Somos hoje, com pouco mais de 200 milhões de habitantes, os campeões mundiais em número dos cursos de Medicina Veterinária já tendo ultrapassado a marca das três centenas de unidades.  A Europa, por exemplo, com 50 países e mais de 700 milhões de habitantes possui 52 Escolas. Destaque-se que a França, berço mundial da Medicina Veterinária, possuí 04 Escolas, a Alemanha 05, a Inglaterra 06, Portugal 09, Espanha 11 e Itália 13.  Com certeza há alguma coisa errada nesta posição brasileira que, a rigor, desserve a juventude e conspira contra o conceito da Profissão pela tendência crescente do acúmulo na sociedade de profissionais malformados que produzirão no ambiente social um conceito falso e pouco condizente com o valor e a relevância da atividade profissional.

As políticas públicas para a educação no Brasil devem ser concebidas dentro de padrões universais de qualidade, valorizadoras da interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, e exercitadas numa visão prospectiva, com uma compreensão planetária de um mundo cada vez mais interconectado e interdependente.

É preciso também estar atento para que a expansão quantitativa do ensino superior seja feita exclusivamente para atender os legítimos interesses e as necessidades nacionais.

c- A iniciativa recente de algumas Instituições de Ensino Superior de oferecer o curso de Medicina Veterinária na modalidade de ensino à distância, (EAD), por seu despropósito e irresponsabilidade com a boa formação profissional, mereceu o imediato e firme repudio do sistema Conselho Federal/ Conselhos Regionais. O CFMV editou uma Resolução, negando a inscrição dos egressos nessa modalidade, proibindo-os de exercer a profissão, pela evidente impropriedade e pelo absurdo da proposta. Esta tentativa já vem de algum tempo e mereceu a atenção de uma Resolução anterior do CFMV, acolhendo uma proposta do então Conselheiro, representante da Bahia, o eminente Professor Laudélio Fonseca,  cujo teor  assinalava que as disciplinas de caráter profissionalizante nas áreas de Medicina Veterinária Preventiva, Clinica e Cirurgia Veterinárias, Produção Animal e Inspeção de Produtos Derivados da Indústria Animal deveriam ser ministradas  de forma exclusivamente presencial.

Aqui não se trata de se posicionar contra o ensino a distância cujo valor e mérito têm o reconhecimento universal, e que pode ser considerado  para  alguns conteúdos de caráter geral, mas de evitar que a sua generalização para áreas profissionalizantes  da Medicina Veterinária e dos cursos da área de saúde, que trabalham e cuidam de vidas, promovam distorções no preparo profissional que  possam acarretar sérios riscos e  prejuízos impagáveis a sociedade.

  1. Ex-alunos

A significativa maioria dos ex-alunos, egressos tanto da UFBA quanto da UNIME, tem honrado e dignificado o exercício da medicina veterinária. São inúmeros os que se constituem referência e destaque para a Medicina Veterinária brasileira. Notabilizaram-se na pesquisa científica, no magistério superior, na atuação profissional e assistência veterinária qualificada, na gestão e execução dos programas de sanidade animal e saúde pública, na inspeção sanitária e tecnológica dos alimentos e produtos derivados da indústria animal, em síntese, nas diferentes e diversificadas áreas da atividade profissional. Muito deles, ocuparam ou ocupam posições relevantes na liderança institucional de diversos órgãos e são formadores de opinião respeitados pela sociedade e merecem os aplausos dos seus contemporâneos, entre os quais, com alegria, me incluo.

  1. Prêmios recebidos

As honrarias com que fui distinguido, em especial, os Prêmios “Professor Fúlvio Alice” outorgado pelo Conselho de Medicina Veterinária da Bahia e “Professor Paulo Dacorso Filho” láurea concedida pelo Conselho Federal defluíram essencialmente da generosidade dos ilustres Conselheiros integrantes dos plenários desses órgãos. Elas se constituem em um estímulo importante para renovar o meu sagrado compromisso de vida de proceder com dignidade, semear o bem e honrar a minha profissão e o exercício da cidadania.

Ao encerrar o nosso agradável encontro, agradeço ao egrégio Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado da Bahia, aos seus eminentes dignitários – Diretoria Executiva e Conselheiros -, a Assessoria de Imprensa, a nímia gentileza desta deferência, pedindo permissão para abraçar e homenagear a todos os colegas médicos veterinários e zootecnistas do estado da Bahia.  Muito obrigado.

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